II Conferência Internacional Pensar e Agir

25-06-2008

No passado dia 19 de Junho realizou-se, no Centro de Congressos de Lisboa, a II Conferência Internacional Pensar e Agir - Práticas para a Inclusão de Crianças e Jovens de Contextos Vulneráveis, promovida pelo Programa Escolhas (PE).


José Vieira da Silva, Rosário Farmhouse e Pedro Calado


Os participantes


Sessão de Abertura

A sessão de abertura deste evento contou com a presença do Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social, José Vieira da Silva, e da Alta Comissária para a Imigração e o Diálogo Intercultural (ACIDI), também Coordenadora do PE, Rosário Farmhouse.


José Vieira da Silva

José Vieira da Silva disse, em seu nome e em nome do Governo português, que era com satisfação que participava na abertura da conferência. "Julgo que todos têm a noção da importância deste tipo de iniciativas, onde se debate e reflecte sobre as crianças e jovens em risco, e onde se discutem as práticas e as ideias que se têm desenvolvido tanto em Portugal, como em outros países", salientou.

Além disso, o Ministro valorizou a importância do PE, lembrando que este nasceu como um programa de prevenção da delinquência e evoluiu para a inclusão social de crianças e jovens em territórios vulneráveis. Destacou duas dimensões de grande importância no programa: a valorização do papel das crianças e jovens e a base territorializada da intervenção, bem como o facto de não se tratar de um programa que trabalha de forma isolada, tomando como exemplo o combate ao abandono escolar que é feito em conjunto com as escolas.

Por fim, enfatizou três dimensões deste programa: Preventiva (a criação de uma rede que ajuda a prevenir); Precoce (a capacidade de intervir rapidamente) e Reparadora (a adaptação aos contextos sociais específicos para reparar os problemas encontrados no terreno) e concluiu dizendo que o modo como esta conferência foi pensada é muito produtivo para se discutir estas questões.

Posteriormente, Rosário Farmhouse deu continuidade à sessão, apresentando um pequeno documentário sobre o PE, e passou a palavra ao primeiro conferencista deste dia, Jan Niessen, Director do Migration Policy Group (Bélgica), que discursou sobre "Boas Práticas na Integração Social".

Boas Práticas na Integração Social


Jan Niessen

O Migration Policy Group é um organismo independente, sedeado em Bruxelas, que trabalha com questões relacionadas com a imigração. Como tal, os seus membros viajam pela Europa para visitar projectos como os do Escolhas, com o intuito de aprender. Aliás, aprender foi a palavra de ordem proferida por Jan Niessen, como factor decisivo na integração. "Temos que remover as barreiras que se interpõem nas políticas de integração. Isso traduz-se no reconhecimento da dignidade das pessoas, tem a ver com a abertura, a vontade de aprender, e isso é que vai fazer com que os jovens mudem as suas vidas", salientou. "É extremamente importante, em toda a Europa, que se aumente o nível de educação", continuou.

Para Niessen, Portugal é um país de imigração e, como tal, há iniciativas que devem ser tomadas para aumentar o nível de capacidade dos imigrantes: qualificar os profissionais da educação ("pois devemos aproveitar ao máximo tudo o que a escola pode oferecer", referiu) e acreditar na capacidade dos alunos imigrantes.

"Normalmente, o imigrante está associado ao insucesso e essa avaliação é errada! Por isso, primeiramente, devemos fazer uma avaliação correcta do imigrante, conhecer as suas aspirações, e dar uma maior ênfase à educação intercultural. E isso exige qualificação dos professores, encarregados de educação, etc…", enfatizou.

Para o Director do Migration Policy Group, é necessário introduzir alterações no ambiente escolar porque os alunos não são todos iguais. O problema da língua, por exemplo, não está a ser abordado correctamente. Existem duas correntes de debate sobre este problema: a que defende que o aluno deve ter aulas na sua língua materna, melhorando a sua auto-estima e promovendo bases sólidas de aprendizagem; e outra que defende a aprendizagem precoce da língua do país de acolhimento. Há ainda escolas que procuram misturar os diversos alunos e outras que os separam. Um sistema interessante, que está a ser implementado em alguns países europeus, é a criação de "mentores" dentro das escolas, que procuram ajudar os alunos que precisam. Mas também é importante oferecer outras actividades fora do horário escolar, com o objectivo de promover a "ponte" entre alunos imigrantes e não imigrantes. Os pais também não podem ser esquecidos e devem ser envolvidos na educação dos seus filhos.

Perante este cenário, Niessen lançou 3 desafios: a) ouvir as famílias imigrantes e conhecer as suas necessidades; b) implementar medidas específicas de apoio; c) ajudar a melhorar as competências dos imigrantes.

Ainda pela manhã, os cerca de 400 participantes puderam assistir à palestra "Juventude, cidadania e exclusão social", proferida por Howard Williamson, professor da Universidade de Glamorgan (País de Gales) e "Governança em comunidades vulneráveis em Portugal", pela socióloga Maria João Freitas, do Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana.


Howard Williamson

"O que separa quem está bem de quem está mal é o tempo de despertar", iniciou Howard Williamson. Para este professor, os processos de transição dos jovens para a vida adulta são cada vez mais lentos. A transição não ocorre de forma pacífica, devido a questões como o desemprego, por exemplo, e por isso são necessários cada vez mais apoios. Apoios para despertarem. "A exclusão social é um facto na Europa e se abandonarmos as crianças e jovens excluídos eles não se irão levantar", enfatizou. "A maior parte dos jovens querem ter sucesso. Para isso, basta serem apoiados e motivados", continuou.

Segundo Howard, temos que pensar nos tempos e técnicas de intervenção. Uma questão fundamental para definir as mesmas é equacionar o problema que enfrentamos a longo prazo: onde irá parar o problema daqui a 10 anos?

"Precisamos de bons profissionais no terreno, precisamos de continuidade… Até as pessoas mais difíceis precisam de ter voz. Não precisamos de mais investigação, mas sim de práticas", concluiu Howard.

A socióloga Maria João Freitas deu início a sua apresentação dizendo que o grande desafio que projectos como os Escolhas têm pela frente é saber lidar com a hierarquia e ser capaz de realizar trabalho em rede.


Maria João Freitas

Segundo ela, quando aplicamos sistemas de governança em territórios estamos a falar de lugares, organização e poderes. Há territórios onde se podem trabalhar novas estratégias de relacionamento. A diferença nas respostas faz-se sobretudo na forma como se conduzem os problemas. Os actores actuam em diferentes escalas e isso é vantajoso porque diferentes actores implicam partilha de valores, construção de regras e cooperação. Para esta socióloga, "não deverão ser os projectos a escolher parceiros, mas os parceiros a escolher os projectos" e esse trabalho implica um processo, um programa e um compromisso.

Durante a tarde…

À tarde foi a vez de grupos de trabalhos temáticos reunirem ao redor de temas como: arte, criatividade e inclusão social; inclusão social pela inclusão digital; educação não formal, participação e capacitação e inclusão e diversidade na educação/ formação.

No primeiro grupo, arte, criatividade e inclusão social, para além das apresentações dos projectos Escolhas Mus-e na Cruz da Picada e Qualificar, a Casa do Hip-Hop de Diadema (São Paulo - Brasil), representada por Nino Brown, apresentou o trabalho que desenvolve no Brasil.


Grupo 1: arte, criatividade e inclusão social

Nino Brown apresentou um vídeo que deu a conhecer a primeira casa de hip-hop da América Latina. Para além da "sala do conhecimento", onde há uma pequena biblioteca, esta casa possui uma sala de dança, uma sala de música e uma sala de grafitti. Esses são os quatro elementos do hip-hop. Mas, para além destes quatro elementos, Nino Brown referiu que no hip-hop é preciso ter atitude. "Por isso a pesquisa é muito importante. Pesquisar o passado para resgatar o presente", salientou. "O hip-hop prega o bem, apesar de muitos não entenderem isso… com o hip-hop, muitos sentem-se incluídos, mudam e melhoram os seus comportamentos, inclusive na escola", concluiu.

No segundo grupo, inclusão social pela inclusão digital, foi a vez dos projectos Tu Decides e Formar para Inserir falarem sobre o tema proposto. Paula Magalhães, da Hybrid: Arts (Reino Unido), apresentou o projecto que mobiliza jovens através do multimédia e das novas tecnologias, em Warwickshire, procurando evitar comportamentos anti-sociais, vandalismo e crime, prevenir práticas racistas e sensibilizar para o perigo do consumo de álcool e drogas.


Grupo 2: inclusão social pela inclusão digital

No terceiro grupo, dedicado à Educação não formal, participação e capacitação, os projectos Aventura e Animar para Prevenir II foram os projectos Escolhas que intervieram. O projecto internacional que participou neste grupo foi o Roots and Routes, apresentado pelo alemão Sascha Dux.

Sascha Dux explicou tratar-se de um projecto sobre músicos e bailarinos que querem difundir suas experiências. Fundado na Holanda (Roterdão), onde teve imenso sucesso, em 2004 o Roots and Routes passou a ser um projecto internacional e hoje está presente em dez países da Europa. A ideia central é unir diferentes talentos através de workshops e masterclasses colectivos e cursos de verão.


Grupo 3: educação não formal, participação e capacitação

No quarto e último grupo, sobre Inclusão e diversidade na educação/ formação, os projectos XL e O Espaço: Desafios e Oportunidades falaram sobre o tema da Inclusão e diversidade na educação/formação. Dermot Stokes, da Youthreach e António Moreno, da Fundación Diagrama, também deram as suas contribuições, mostrando como uma estratégia nacional, no caso Irlandês, e um projecto inter-regional, no caso espanhol, constroem, respectivamente, soluções para a escolarização e certificação profissional de um público mais desafiante, que procura uma segunda oportunidade depois do insucesso nos sistemas de ensino convencionais e de experiências de reclusão.


Grupo 4: inclusão e diversidade na educação/ formação

Durante todo o dia, os intervalos foram animados por performances de grupos de música e dança formados por destinatários de projectos Escolhas. A primeira apresentação ficou a cargo do grupo de dança RATCHA BAY, proveniente do Projecto Anos Ki Ta Manda, localizado no Bairro 6 de Maio, na Amadora. Mais tarde foi a vez do grupo de dança flamenco do Projecto Escolhas Vivas, de Vila Real de Santo António, apresentar-se perante o público presente. Por fim, o grupo de percussão Kukiiro, do Projecto Qualificar, no Porto, encerrou o evento com a mostra de uma grande batucada!


RATCHA BAY


grupo de dança flamenco


Kukiiro

As conclusões

"É difícil dissociar a prática artística do quotidiano social dos jovens", referiu Jorge Barreto Xavier, da Direcção Geral das Artes, que foi o relator do primeiro grupo de trabalho da tarde. "As práticas artísticas não são apenas ferramentas que ajudam na inclusão. As práticas artísticas têm um valor social de autonomia", concluiu.


Jorge Barreto Xavier

Para João Correia de Freitas, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, e relator do segundo grupo de trabalho desta tarde, a valência digital é usada para atrair muitos dos jovens que frequentam projectos como os do Escolhas, devendo-se usar a certificação dada pelos cursos de formação digital como forma de se valorizar ainda mais a participação dos jovens nestes projectos.


João Correia de Freitas

As conclusões que foram tiradas pelo terceiro grupo de trabalho passaram pelo facto da educação não formal aparecer como algo incontornável numa estratégia educativa de inclusão social. Para Luís Castanheira Pinto, da Inducar, e relator deste grupo de trabalho, a articulação entre a educação formal e não formal e o trabalho em rede são ferramentas essenciais na construção dos projectos, que devem ser pensados a partir dos jovens, ou seja, "os jovens devem ser tidos sempre como um recurso e nunca como um problema", enfatizou.

Por fim, Isabel Ferreira Martins, do ACIDI, e relatora do quarto grupo de trabalho, disse que os projectos debatidos têm a capacidade de ultrapassar as barreiras que os sistemas de educação e formação ainda têm, pelo seu peso e dimensão, inovando. "O modo como poderá o Estado incorporar estas inovações e práticas é um campo ainda aberto", concluiu.


Luís Castanheira Pinto e Isabel Ferreira Martins

Rosário Farmhouse encerrou este dia de trabalho dizendo que, "conhecendo e dando a conhecer, estou certa de que poderemos fazer mais e melhor!"

A Coordenadora do PE falou ainda sobre a sustentabilidade do programa e a capacidade que este tem em agir em conjunto. "Para problemas multidimensionais esperamos soluções multidimensionais. Articulando, permanentemente, o pensar e o agir, penso que podemos fazer melhor".

Para fechar esta conferência com "chave de ouro", Rosário Farmhouse anunciou que o PE foi reconhecido internacionalmente, pelo Centre Internacional pour la Prevention de la Criminalité, como uma boa prática.


Rosário Farmhouse

Comentários

    Ainda não há comentários. Insere o teu comentário